Quando o amor também significa deixar ir: uma reflexão espírita sobre os desencontros da vida
- Wagner Lettnin
- há 9 horas
- 4 min de leitura

Há momentos em que o coração insiste em permanecer onde a vida já não nos permite ficar.
É comum acreditarmos que amar significa lutar até o fim, insistir, convencer, tentar mais uma vez. No entanto, sob a luz da Doutrina Espírita, descobrimos que existe uma forma ainda mais elevada de amar: respeitar a liberdade do outro, mesmo quando isso exige renunciar aos próprios desejos.
As relações humanas nunca são fruto do acaso. Segundo O Livro dos Espíritos, somos Espíritos imortais que se reencontram ao longo de muitas existências. Pais, filhos, amigos, companheiros e até aqueles que nos causam grandes dores podem ter compartilhado conosco outras experiências reencarnatórias.
Na questão 386, Allan Kardec pergunta se duas pessoas que se conheceram e se amaram podem voltar a se encontrar em outra existência. Os Espíritos respondem afirmativamente, explicando que os laços de verdadeira afeição sobrevivem à morte e frequentemente aproximam novamente aqueles que possuem afinidade espiritual.
Entretanto, reencontrar-se não significa, necessariamente, permanecer juntos.
Cada reencarnação possui objetivos próprios. Às vezes, duas almas voltam a caminhar lado a lado para reparar erros do passado. Em outras ocasiões, apenas para aprender uma importante lição e seguir caminhos diferentes.
É justamente aí que surge um dos maiores desafios do sentimento humano: compreender que amar não é possuir.
O amor nunca retira a liberdade
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, especialmente no capítulo XV – Fora da Caridade Não Há Salvação, aprendemos que a verdadeira caridade não se limita ao auxílio material. Ela também se manifesta no respeito, na compreensão, na indulgência, no perdão e no reconhecimento do livre-arbítrio alheio.
Muitas vezes imaginamos estar agindo por amor quando, na realidade, estamos tentando satisfazer uma necessidade nossa.
Insistimos em uma conversa.
Esperamos uma resposta.
Criamos expectativas.
Interpretamos o silêncio como rejeição.
Mas o Espiritismo nos convida a uma pergunta profunda:
Estamos buscando o bem do outro ou apenas aliviar a nossa própria dor?
Quando compreendemos essa diferença, nasce uma nova forma de amar.
Uma forma que não exige.
Não cobra.
Não aprisiona.
A dor também educa o Espírito
As grandes perdas costumam despertar revolta, tristeza e inúmeros questionamentos.
"Por quê?"
"O que fiz de errado?"
"Poderia ter sido diferente?"
Contudo, a Doutrina Espírita nos ensina que nenhum sofrimento acontece sem finalidade educativa.
Na questão 258 de O Livro dos Espíritos, encontramos o ensinamento de que, antes de reencarnar, o Espírito participa da escolha das provas que enfrentará, conforme seu grau evolutivo e suas necessidades de aprendizado.
Isso não significa que cada detalhe da existência esteja rigidamente determinado, mas que muitas experiências desafiadoras são aceitas pelo próprio Espírito como oportunidades de crescimento moral.
Sob essa ótica, um relacionamento que chega ao fim não representa necessariamente um fracasso.
Pode ter sido exatamente a experiência que ambos necessitavam viver.
Talvez tenha sido o momento de desenvolver o desapego.
Talvez o perdão.
Talvez a humildade.
Talvez simplesmente aprender a continuar vivendo.
O verdadeiro amor nunca se perde
Nas obras psicografadas por Chico Xavier, especialmente nas mensagens atribuídas ao Espírito Emmanuel, era recorrente o ensinamento de que o amor verdadeiro jamais se perde. Ele transforma-se, amadurece e continua produzindo frutos, mesmo quando as circunstâncias da vida afastam temporariamente aqueles que se amam.
Quando o afeto é sincero, ele deixa de depender da presença física.
Transforma-se em gratidão.
Em oração.
Em desejo sincero pela felicidade do outro.
Não importa se essa felicidade será compartilhada conosco ou não.
Essa talvez seja uma das maiores demonstrações de evolução espiritual.
Respeitar também é amar
Nas palestras e obras de Divaldo Pereira Franco, inspiradas pelos ensinamentos do Espírito Joanna de Ângelis, era frequente a orientação de que o amor saudável jamais invade a intimidade emocional de alguém. Amar também significa respeitar o tempo, a liberdade e o processo evolutivo de cada Espírito.
Cada pessoa possui seu tempo.
Suas dores.
Seus desafios.
Seu momento de despertar.
Respeitar esse tempo é um ato de maturidade espiritual.
Nem sempre conseguimos fazê-lo imediatamente.
Às vezes insistimos.
Erramos.
Tentamos novamente.
Somente depois percebemos que a insistência também pode transformar o amor em sofrimento.
É nesse instante que aprendemos uma das lições mais difíceis da existência:
há momentos em que o maior gesto de carinho é simplesmente permitir que o outro siga seu caminho.
E se um dia houver um reencontro?
O Espiritismo nunca fecha portas.
Ao contrário, ensina que os Espíritos afins tendem naturalmente a reencontrar-se.
Mas esses reencontros acontecem quando ambos estão preparados.
Nunca pela força.
Nunca pela imposição.
Nunca pela ansiedade.
Se um dia duas pessoas voltarem a caminhar juntas, que seja porque ambas escolheram isso livremente.
Caso contrário, que permaneçam unidas apenas pela gratidão.
A casa construída dentro de nós
Às vezes reformamos uma casa imaginando alguém ao nosso lado.
Planejamos viagens.
Fazemos projetos.
Sonhamos futuros.
Quando esses sonhos não se concretizam, sentimos como se tudo tivesse perdido o sentido.
Entretanto, talvez o maior aprendizado seja perceber que a verdadeira construção nunca foi a casa de tijolos.
Foi a casa interior.
Cada parede levantada.
Cada dificuldade vencida.
Cada renúncia.
Cada lágrima superada.
Tudo isso edificou um Espírito mais consciente de si mesmo.
As pessoas entram em nossa vida para colaborar nessa construção.
Algumas permanecem.
Outras seguem caminhos diferentes.
Nenhuma delas passa em vão.
Seguir em frente também é um ato de fé
Seguir não significa esquecer.
Também não significa deixar de amar.
Significa confiar.
Confiar que Deus conduz cada existência com uma sabedoria infinitamente maior que a nossa.
Se houver um novo encontro, acontecerá naturalmente.
Se não houver, nada do que foi vivido terá sido inútil.
O amor verdadeiro nunca desperdiça experiências.
Ele sempre transforma.
Talvez essa seja uma das mais belas lições da Doutrina Espírita para os corações que sofrem diante de um desencontro:
Deus jamais abandona aqueles que amam sinceramente. Os reencontros, quando necessários ao progresso de ambos, acontecerão no tempo certo e segundo as Leis Divinas, nunca apenas pela vontade humana.
No momento oportuno compreenderemos que nenhuma oração foi em vão, nenhuma lágrima foi ignorada e nenhum amor verdadeiramente vivido deixou de produzir frutos para a evolução do Espírito.
Porque, à luz do Espiritismo, amar é desejar a felicidade do outro, ainda que essa felicidade siga um caminho diferente do nosso.
E talvez esse seja um dos maiores passos que um Espírito pode dar em direção ao verdadeiro amor. Por Wagner Lettnin Referências: Allan Kardec – O Livro dos Espíritos; Allan Kardec – O Evangelho Segundo o Espiritismo; Chico Xavier (Espírito Emmanuel) – Fonte Viva; Chico Xavier (Espírito Emmanuel) – Vinha de Luz; Divaldo Pereira Franco (Espírito Joanna de Ângelis) – Jesus e Atualidade; Divaldo Pereira Franco (Espírito Joanna de Ângelis) – O Homem Integral.






Comentários